sexta-feira, setembro 01, 2006

Descoberta molécula com acção anti-malárica em planta de São Tomé e Príncipe

Encontrado no site do 2010, um outro artigo (ver post anterior - Genética da população de São Tomé) sobre investigação efectuado em São Tomé e Príncipe:

Sendo a malária uma doença que ainda mata em África, a descoberta de uma molécula activa com função anti-malárica é um passo determinante para erradicar a doença. Maria do Céu Madureira é a voz do projecto “Paguê”, uma iniciativa que visa comprovar a actividade terapêutica das plantas. Para o efeito, contou com a ajuda preciosa dos terapeutas tradicionais de São Tomé e Príncipe.
O homem sempre teve uma estreita relação com a natureza. As plantas, mais do que ornamentos visuais, podem surpreender a ciência e ser um parceiro importante para a erradicação de doenças. O projecto Paguê é disso exemplo. Trata-se de uma iniciativa que privilegia a investigação científica e que trata as plantas como fortes aliados. De forma a dar uma vertente mais prática às aulas de ciências farmacêuticas, algumas alunas do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz rumaram para São Tomé e Príncipe.

Os terapeutas tradicionais – Verdadeiros dicionários botânicos

Maria do Céu Madureira, professora no Instituto, é a voz do projecto. A ideia de ir recolher plantas em São Tomé e Príncipe não foi impensada. Estas ilhas detêm uma flora muito rica, uma verdadeira extensão botânica, ainda muito pouco explorada. A primeira fase do projecto trouxe informações úteis pela voz de quem mais sabia, os terapeutas tradicionais. Mais do que catalogar novas informações, o projecto permitiu trazer cerca de 50 espécies medicinais diferentes, posteriormente analisadas em contexto laboratorial.
O contacto directo com os terapeutas foi fundamental. Sem eles, seria impensável ter acesso a essa fonte de conhecimento, que vai desaparecendo à medida que os curandeiros morrem. “É realmente uma fonte de sabedoria imensa que, depois, os investigadores, nos laboratórios, podem utilizar para direccionar as suas pesquisas”, confirma Maria do Céu Madureira.

Tagitinina c - uma descoberta importante

Uma das espécies identificadas cientificamente e que já foi alvo de investigação laboratorial é a titonia diversifolia, mais conhecida em São Tomé como o “Girassol”. Esta planta contém a Tagitinina C, um composto activo, que provou ter uma acção anti-malárica. Esta descoberta só foi possível depois de um terapeuta tradicional ter mostrado a planta que usava para curar a malária. Neste momento, conviria dar continuidade ao processo, “fazer interessar a indústria por este tipo de compostos, que pode ser muito útil para a população de São Tomé e a outros países onde a malária é endémica e é um problema muito grave”, acrescenta a investigadora.
O aparecimento de doenças incuráveis, o ressurgimento de doenças consideradas extintas, ou a resistência aos fármacos, criam a necessidade de estudar novas alternativas. A etnofarmacologia pode então ser um aliado importante na pesquisa de novas moléculas. A Tagitinica C actua sobre o parasita da malária humana e a aplicação prática desse estudo pode ganhar terreno em benefício da população em África.

Um negócio sem regulamentação

A comercialização dos medicamentos à base de plantas ainda não está regulamentada. Apesar das disposições comunitárias, estes remédios, muitas vezes vendidos em ervanárias, continuam a entrar no mercado português como produtos dietéticos ou alimentares. “Não estão sobre a alçada, até agora, do Ministério da Saúde nem do Infarmed, que é quem regula e tutela toda a parte do medicamento”, informa Maria do Céu Madureira. A Lei, que deveria estar em vigor desde o dia 1 de Novembro de 2004, obriga todos os países membros da União Europeia a considerar como medicamento os produtos que tenham uma função terapêutica, incluindo os produtos à base de plantas. Nesse sentido, utilizar um medicamento sem prescrição médica ou aconselhamento farmacêutico continua a ser um risco. Há produtos que detêm uma forte componente tóxica. “Não nos podemos esquecer dos últimos avanços na área do cancro. A grande maioria dos últimos produtos que surgiram no mercado são, ou de origem sintética, ou de origem exclusivamente natural. Portanto, não estamos a falar apenas dos cházinhos para a digestão ou para a dor de cabeça”, avisa a investigadora

Estudo botânico, uma investigação com bons resultados

Uma das premissas desta investigação consiste na análise da actividade biológica nas plantas. Os dados obtidos em laboratório confirmam que, em 76 por cento dos casos, os estados brutos das plantas apresentam uma actividade antibacteriana ou antifúngica. Os resultados são surpreendentes e comprovam a eficácia daquilo que os terapeutas tradicionais já manuseiam há muitos tempo, uma sabedoria, que é agora um forte contributo para a investigação em Portugal.

Sofia Pinheiro - 07/12/2005

Genética da população de São Tomé

Encontrado no site do 2010, um artigo sobre investigação efectuado em São Tomé e Príncipe:

Vamos viajar até África, mais propriamente até São Tomé e Príncipe, onde um grupo de investigadores do IPATIMUP desenvolveu um estudo sobre o património genético da população. Através da recolha de ADN dos nativos são-tomenses, é agora possível escrever a história do povoamento desta ilha africana.
A história das origens da população de São Tomé tem várias versões. Sabe-se que se trataram de escravos trazidos pelos colonos portugueses, mas levanta-se algum véu de controvérsia quanto à naturalidade destes indivíduos.

Jorge Rocha, investigador no IPATIMUP, viajou até São Tomé no Verão de 2003 para contar a história de um povo através da sua genética.

Pretendia-se saber um pouco mais sobre os cruzamentos genéticos dos escravos com os portugueses, mas acima de tudo, o projecto visava perceber as migrações de escravos para esta ilha.

O estudo veio quebrar a ideia de que a população de São Tomé terá tido origens essencialmente angolanas. Como explica Jorge Rocha, “quanto às regiões de origem dos escravos na região de São Tomé, o que nós concluimos é que hoje ainda é possível ver as marcas das migrações de escravos capturados em regiões tão distintas como a região da Nigéria e daquilo a que se chama a Costa dos Escravos, que vai da zona da Nigéria, ao delta do rio Níger e a região do Gana, onde na altura desempenhava um lugar central no tráfego de escravos, o forte de São Jorge da Mina, construído pelos portugueses nos finais do séc. XV”.


Nos níveis de miscigenação, São Tomé não seguiu o exemplo de outras colónias africanas portuguesas. Jorge Rocha confirma a existência de genes europeus nos sãotomenses, mas ressalva tratarem-se de níveis relativamente baixos na ordem dos 10%.

A diversidade da ilha é grande, mas poderiam-se desenhar essencialmente dois grandes grupos populacionais: “o que nós verificamos é que existe um nível de variação excepcional dentro da pequena ilha de São Tomé. E que essa diferenciação está bem correlacionada com a diferença de um grupo linguístico de São Tomé, que se chama angolares.”

Tjerk Hagemeijer é um linguísta holandês que se tem dedicado ao estudo das línguas de São Tomé e Príncipe. As conclusões que tem tirado vão de encontro aos estudos feitos pela equipa de Jorge Rocha.

O linguísta transcreveu várias gravações dos quatro crioulos do arquipélago, analisou as estruturas, e consegue agora garantir ter havido uma língua nuclear comum: “Em São Tomé, do contacto entre os portugueses e os escravos terá surgido uma nova língua. Sobretudo no seio dos escravos terá surgido uma nova língua para se comunicarem com os europeus – os portugueses, neste caso. Começa aí a nascer um crioulo, que, provavelmente, nesta fase, é um pidgin. Um pindgin nem é uma língua, é uma forma de comunicar muito rudimentar. E é a partir desse pindgin que se forma o crioulo. Portanto, o crioulo é a nativização de um pindgin. Isto é o que terá acontecido no caso de São Tomé.”

Mas o angolar continua a ser um desafio, pois “estamos a ir de uma língua de um grupo completamente diferente, que se falava uma língua no reino do Benin, que ainda hoje se fala, que é o “edo”, do grupo “edoid”, que é família quase do “yoruba”, etc. É uma língua tipologicamente muito diferente das línguas “bantu”. As línguas “bantu” são as línguas que encontramos no Congo, em Angola. São grupos tipologicamente muito distintos”

Sabe-se que numa primeira fase, a chamada sociedade de habitação, os escravos trazidos para São Tomé teriam origens na zona do reino de Benin, na Nigéria. Vinte anos depois, com a platação da cana de açucar, dá-se uma mudança de área de resgate. Eram precisos homens robustos e os colonos decidem trazer escravos da zona do Congo e de Angola. Supostamente, seriam estes os locais de origem dos angolares, mas como já referimos, este grupo populacional apresenta também influências de outras zonas de África.

Várias histórias se levantam para explicar a origem dos angolares. Há quem fale do naufrágio de um barco negreiro, cuja tripulação escrava sobrevivente tivesse rumado até à costa. Outros acreditam que estes angolares se trataram de escravos que fugiram das roças e que criaram uma comunidade própria, vindo a espalhar-se mais tarde pelas zonas costeiras da ilha de São Tomé.

Apesar do carácter peculiar da língua dos angolares, Tjerk Hagemeijer explica que os quatro crioulos mantêm uma estrutura comum: “Todos os quatro crioulos têm estruturas que são comuns. Vou dar um exemplo: pássaro voou subiu – que quer dizer “o pássaro voou para cima”. São dois verbos que exprimem uma só acção: voar para cima”. Ou por exemplo, “tomar água, pôr na lata” - pôr a água na lata. Estas estruturas são chamadas estruturas de verbos seriais. Isto é uma componente nuclear de uma gramática. Os quatro crioulos têm esta estrutura e esta estrutura não existe em Bantu, mas é uma estrutura típica ao nível das línguas da Nigéria, Gana, Costa do Marfim, etc.”

Há um palco de partilhas linguísticas e genéticas entre os indivíduos que são e os que não são angolares. O que o grupo de Jorge Rocha não consegue explicar é o que originou toda esta diversidade sãotomense:“o que nós sabemos é que existe uma perda da diversidade e ao mesmo tempo uma partilha genética entre os angolares e os indivíduos que não são angolares. Agora, o que não sabemos é se essa partilha resulta de uma origem comum com posterior diferenciação, ou se de origem diferente com posterior miscigenação. Isso é um problema muito difícil!”

Ao todo, foram recolhidas amostras de ADN a 1400 pessoas – o que representa 1% do total da população de São Tomé. O processo de colheita é idêntico àquele utilizado nas técnicas forenses comuns. Faz-se uma rapagem do interior da cavidade bucal e coloca-se esse extracto em álcool, onde permanece até ser trabalhado no laboratório.

Jorge Rocha adianta ainda que em nenhum momento foi feita uma separação à priori dos indivíduos colectados quanto ao grupo populacional. Deste modo evitaria pré-conceitos na investigação. No entanto, à medida que obtinha os resultados de ADN, verificava que indivíduos de diferentes localidades se agrupavam, não obstante, nos tais dois grandes grupos populacionais: os angolares e os não-angolares.

Quase a completar três anos de investigação, o projecto encontra-se na meta final. No entanto, muito ainda haverá por estudar na terra que Jorge Rocha considera um laboratório fabuloso de diversidade genética.

Cíntia Taylor - 11/12/2005